Autonomia: O que é? Por que é importante?

A autonomia que almejamos para nossas crianças e nossos jovens vai muito além da habilidade de fazer algo sozinho, ter independência. O sentido de autonomia que defendemos é o de instrumentalizar nosso aluno para ele “querer fazer o que é certo”, porque agir corretamente o faz se sentir bem como pessoa. As escolhas moralmente corretas devem ocorrer por uma necessidade interna e não pela pressão social externa.

Quando a necessidade é interna, o menino não evita estragar as paredes porque há câmeras que possam identificá-lo; ele não deixa de bater no colega porque um adulto está presente – ou seja, por medo da punição. Ele aceita as regras porque entende e legitima o princípio do respeito às pessoas e à propriedade. Há uma sensível diferença nas justificativas. A primeira está presa ao regulador externo; a segunda, movida pelo querer interno.

Estamos diante de duas tendências morais do ser humano. A heteronomia implica acatar a regra por motivos externos a ela – como o medo da autoridade e da punição. A autonomia acata a regra por compreender e legitimar o princípio que a sustenta.

É evidente que desejamos que nossas crianças sejam movidas pela autonomia! Mas como ela se torna autônoma?

Piaget, em sua obra “O Juízo Moral na Criança” (Editora Summus), explica que a criança passa a conhecer o que deve ou não ser feito a partir das relações estabelecidas com o meio social. É assim que elas aprendem o certo e o errado, o bem e o mal.

Explicando melhor: quem apresenta as primeiras regras para as crianças são os adultos que convivem mais sistematicamente com elas. Os pequenos obedecem às normas devido aos sentimentos que nutre pela pessoa que as dita e agem de acordo com o esperado para agradar a figura de autoridade que admiram (ou temem). Ocorre, portanto, uma relação de coação em que prevalece o respeito unilateral. Pensem no tamanho da responsabilidade de quem se torna essa figura na vida da criança: pais, avós, irmãos mais velhos e os professores!

A criança age por pura coação dos mais velhos até que tenha condições cognitivas para se colocar no lugar do outro. Na ausência da autoridade, novas investidas sobre o proibido são feitas. Todos nós passamos pela etapa da heteronomia em nosso desenvolvimento moral. E até hoje, em muitas situações, continuamos a respeitar a autoridade e não a regra! Quando a fonte da regra não está presente, fazemos ou falamos o que não é permitido. Quer dois exemplos disso? Falar ao celular dirigindo quando não há a presença de policiamento e dirigir acima da velocidade permitida quando não há radar.

O que fazer na prática?

Se almejamos a autonomia das crianças, é bom pensarmos em como são nossas relações com elas e também com o conhecimento. Se usarmos mais a coação (ameaças e punições), apresentando os saberes somente pelo verbalismo, informando o que deve ou não ser feito, acabaremos ancorando-os na heteronomia. Ou seja, eles dificilmente conseguirão tomar boas decisões sem a influência do olhar externo.

Assim como, se optarmos pelos castigos ou prêmios como ferramentas necessárias para bons comportamentos, o respeito unilateral não evoluirá para o respeito mútuo. Quando isso acontece, a pessoa é incapaz de se colocar no lugar do outro e não regula seus impulsos em função de um compromisso consigo e com o outro, agindo apenas de acordo com os “freios morais” externos.

Por outro lado, para que a criança se torne cada vez mais autônoma – agindo sempre em função de princípios e não do contexto –, nossa defesa deve ser por um ambiente cooperativo em que sejam garantidas as trocas de pontos de vista e o exercício do respeito mútuo em todas as relações – seja com a autoridade ou com os pares. Convenhamos, não é tão simples na prática. Ainda mais porque tendemos a reproduzir a forma mais autoritária pela qual fomos tratados por nossos pais e professores, ou o inverso, agimos com frouxidão para evitar o “sofrimento” da criança. Sabemos, no entanto, que na Educação não há receitas, justamente por se tratar de um trabalho que envolve diferentes contextos e seres humanos em constante construção e transformação. Mas é importante buscar coerência em nosso convívio e atitudes para com esses pequenos indivíduos a fim de que seja possível concretizar o que almejamos. Trata-se de um desafio diário que exige, sim, muito comprometimento e doses equilibradas de amor e racionalidade!

Escrito pela Mestre Flávia Vivaldi para a revista Gestão Escolar.
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